parêntesis

quando o assunto é pecado, sempre aparece, mesmo sem ser convidado, um intruso chamado julgamento prévio. esse tal às vezes vem escondido – se nos bolsos de paletós bem cortados ou na mochila surrada, não importa -, mas sempre vem. diz-se por aí que é fácil identificar pecados na conduta das pessoas. alguns chegam a se apoiar nas palavras bíblicas "pelos seus frutos os conhecereis" (mateus 7:20) para explicar sua atitude covarde e desleal. o que não percebem é que o texto diz "pelos seus frutos os conhecereis" e não "pelos seus frutos os condenareis".
condenar tem que ver com pecados, é verdade. palavras ditas, roupas vestidas ou desvestidas, comidas e bebidas, presença em lugares "impróprios", ausências das mais diversas – isso, segundo a óptica vesga de quem ousa julgar, traduz o completo sentido do que seja pecado e essa é a munição de que precisam para seus ataques grosseiros e intempestivos.
conhecer é algo totalmente diferente. condenar é fácil, conhecer é difícil. condenar só leva de nós um pouco de saliva e uma dúzia de palavras arrogantes. conhecer exige mais. exige atenção para obervar o todo. exige tempo para a maturação dos frutos (atos). exige espaço para a dúvida. exige humildade para perceber a ignorância. exige ousadia para a repreensão. exige consagração para a intercessão. exige, sobretudo, um milagre: o perdão.
quem simplesmente condena, desconhece a existência de algo errado na vida das pessoas erradas (e uma delas sou eu), algo além de seus muitos pecados: o pecado (em sua essência). desconhecem a existência do vírus que percorre as veias dos atos e até dos pensamentos de todos nós, os azarados escolhidos para viver neste planeta errado.
não faz muito tempo, ouvi a história de uma viagem num trem lotado. era mais um daqueles dias que amanhecem frios e tristes do inverno europeu. em um certo vagão iam pessoas normais, com destinos normais, para atividades normais, em um dia normal. não queriam muita coisa, só o silêncio frio no vagão já lhes bastava. de repente, um choro de criança rouba-lhes o último privilégio. as pessoas acordaram, entreolharam-se, e como se o choro não fosse parar nunca mais, um homem se adiantou aos pensamentos da maioria e gritou: "alguém aí dê um jeito nessa criatura!".. silêncio por um momento. mas a desculpa tímida veio do homem que tinha o bebê nos braços: "desculpem-me, senhores.. é que o meu bebê não dormiu a noite toda. minha esposa morreu, seu corpo está no vagão de cargas. vamos em direção à nossa cidade natal para enterrá-la.. mas eu não sei muito bem como acalmar meu pequeno.. desculpem-me". o primeiro homem se calou envergonhado, duas mulheres se aproximaram para ajudar, o nenê dormiu e a viagem seguiu.
o pecado é um grito desajeitado em meio ao silêncio harmonioso da criação de Deus. o pecado fez até o próprio Deus chorar. há quem só perceba, e chegue mesmo a condenar, o choro das crianças no vagão dessa vida ingrata e desconheça a história do Pai que sofre.
antes de usar os dedos para condenar, use os joelhos para orar.
 
antes de condenar, conheça.
 
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2 Responses to “parêntesis”

  1. Dalila Says:

    cândido, continue escrevendo, é sempre muito bom ler seus textos.
    quanto a este: não há o que comentar, ele fala por si!
    um abraço e que Deus te abençoe

  2. Raphael Says:

    Eu sou um cara que gosta de degustar palavras. Pelo menos me considero assim. Tem palavras que são amargar, acres. Palavras que lhe entorpecem o paladar, deixando por alguns minutos aquele gosto estranho de intromissão não permitida. Existem palavras que são como a solidez que estaciona no estômago e causam dor, angústia, aflição. Existem palavras que são como suspiros, que só de colocar na boca, se desfalecem. Existem palavras que são como aquele alimento que instiga seus instintos, com aquele odor que se traduz em milhares de glândulas que invade a boca, deixando aquela expectativa de provar logo. Existe ainda, aquela que se coloca na boca e a vontade é de comer eternamente, tamanhos e extasiantes são o conjunto dos sabores numa harmonia sem igual. Mas nessa minha vida, nem tão longa assim, aprendi algo simples e aparentemente estranho: texto apetitoso é aquele capaz de te fazer toda essa miscelânea de sensações de uma só vez. Simples assim. Texto bom é aquele que pesa, que amarga, que encanta, que incita, que cria desejo. É palavra que contribui. Para a edificação, para a reflexão, para a imaginação, para a constatação.. constatação que ainda estamos distantes daquilo que precisamos ser. Obrigado Cândido, por causar este turbilhão em mim. Coisas que há muito não sentia e por conseqüência, não lia. Encontrar mentes como as suas, são a certeza de que pela frente ainda hão de vir os melhores banquetes. E eu estarei na ponta da mesa. Pronto a degustá-los. Paz meu amigo e que o mundo ofereça mais casos que te inspirem a ser um dos melhores confeccionistas que tenho tido a oportunidade de ler nos últimos tempos. Abraço.      

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